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João Correia: Começando pelo passado, Death In June, o que é que te diz?
Tony Wakeford: Eu fiz muito com eles, no passado. Compus muitas das músicas desse período, das letras, tocava baixo e cantava... Cansei-me, cheguei ao fim.

João Correia: Não eras um membro demasiado valioso para sair. Não dirigias os DIJ nesse período?
Tony Wakeford: Julgo que não. Talvez assim pareça, mas não tenho essa impressão. O Doug e o Pat mantinham a direcção a seguir e eu não me preocupava muito. Não sei... sei que estou feliz por ter saído e que sou mais feliz através dos Sol Invictus.

João Correia: Não existiram desacordos de qualquer género?
Tony Wakeford: Não, não. Os DIJ estavam, estávamos, a ficar muito deprimentes e eu não era aquilo. Um grupo é sempre, essencialmente, a visão de uma só pessoa. Os outros ajudam e põem muito de si claro, mas é sempre algo pessoal. A democracia não funciona ao nível de uma banda... e os DIJ são a visão do Doug acerca das coisas!

João Correia: Os Sol Invictus começaram também por ser três pessoas, mas logo passaram a ser o Tony Wakeford mais colaboradores. Foi uma espécie de lição...?
Tony Wakeford: Os S.I. só foram apresentados como um trio no primeiro álbum, mas foi sempre o meu material e as minhas ideias que estavam presentes. E isso sempre foi claro entre todos.

João Correia: Porquê o desaparecimento de quatro anos entre os DIJ e os Sol Invictus?
Tony Wakeford: Basicamente porque fiquei farto da música... Esse período foi um período "baixo" da minha vida em muitos sentidos. Foi aí que fiz todos aqueles erros que sempre fazemos na vida e que depois nunca mais repetimos.

João Correia: Foram os anos do envolvimento com a magia, com a joalheria, etc. etc.!
Tony Wakeford: Sim. Ficou-me dos DIJ o gosto pela simbologia, pelo oculto, pelas runas... Mas aprendi muito, sobretudo a não acreditar em ninguém desse período.

João Correia: Estão aí alguns dos erros que mencionavas, não? Ou não é a magia que hoje conhecemos um conjunto de tretas para ignorante acreditar!
Tony Wakeford: Sim, bastante. A maior parte das pessoas envolvidas com o oculto são uns verdadeiros idiotas, sim.

João Correia: Qual era então a tua perspectiva pessoal em relação ao assunto, ou a dimensão do teu envolvimento?... Popular ou científica?
Tony Wakeford: Prática, essencialmente. Estava envolvido com pessoas que estudam e se dedicavam à magia. Fazer magia, praticar rituais. A magia é ritual... Mas tudo isso já acabou.

João Correia: E porquê?
Tony Wakeford: Porque sempre que te juntas a outras pessoas ou a um grupo, seja ele qual for, isso significa também problemas. A natureza humana é muito individualista e, especialmente no campo da magia, lidas muito com o ego das pessoas e com as suas personalidades. E aqui caem muitos dos "fucked up" da sociedade.

João Correia: São pessoas que vivem um pouca à margem da realidade, não?
Tony Wakeford: Sim. Inadequadas principalmente. E a magia torna a vida delas mais interessante. Sentem-se poderosas num ritual.

João Correia: Isto tudo não é afinal religião? Seja ela qual for.
Tony Wakeford: Num sentido muito pobre apenas.

João Correia: Que religião professas então!
Tony Wakeford: A do indivíduo. Qualquer forma de massas, de "mass culture", eu não gosto... Acho que posso ser considerado "pagão", mais do que outra coisa. No norte da Europa o Paganismo é essencialmente a religião do indivíduo, e eu identifico-me com isso.

João Correia: E o Paganismo não é afinal a não-religião?
Tony Wakeford: Julgo que o termo surgiu para aqueles que vivem perto da natureza, acreditando no mundo natural. O mal das religiões do presente é que põem Deus acima do homem e da natureza. Na visão pagã, Deus é a natureza e vice-versa. O que é sagrado não está divorciado de nós. É sagrado porque faz parte da natureza, e o homem faz parte dela. Muitos dos problemas do presente acontecem porque o homem quer ser superior à natureza!

João Correia: Explica-me concretamente o que são as runas?
Tony Wakeford: É difícil. Vêm do antigo alfabeto germânico, de origem nórdica/escandinava, envolvendo propriedades mágicas. São sinais, letras do alfabeto, representando coisas ou estados e cuja interpretação difere em cada indivíduo. São símbolos que ligam o homem à natureza, com milhares de anos de existência. Não há leis que as expliquem. Só estudando e penetrando no seu mundo.

João Correia: Está aí a chave da frase que dá nome ao primeiro álbum, "Against The Modern World"?
Tony Wakeford: ...Não é que eu defenda o regresso aos tempos de pobreza e ignorância do passado. Nada disso. O problema é que somos usados pelo sistema de diversas formas. Essa frase não é contra a tecnologia ou o progresso, que eu aliás adoro, mas contra a destruição das coisas boas do passado. Dos valores. É contra a alienação do indivíduo pela cultura de massas.

João Correia: E o teu Sol, não terá mais entendimento como símbolo universal do que individual?
Tony Wakeford: O Sol é um símbolo de força e pureza, de energia e poder, vida. É um símbolo das religiões da natureza. É um símbolo positivo.

João Correia: Qual é o significado preciso do teu "Sol Invencível"?
Tony Wakeford: É o "the Unconquered Sun". Originário da Pérsia e que, depois de transportado para Roma pelos soldados do Império, se tornou numa espécie de religião. É sinónimo de força incontrolável, não corruptível.

João Correia: A ideia de força é muito comum nas tuas canções, concordas?
Tony Wakeford: Sim. Não se trata de uma coisa tipo macho, tipo Rambo, mas sim da força da criação. É uma força interior.

João Correia: Usas o latim com muita frequência também!
Tony Wakeford: Sim, porque é uma língua muito bonita. Faz parte da cultura europeia. É a linguagem da sua civilização.

João Correia: Não te achas extremamente descrente e cínico em relação à cultura e civilização europeia? "If you're looking for europe, best look in your heart", citando uma música tua.
Tony Wakeford: Sou bastante cínico e pessimista em relação a esta era, sim. O ser humano desaponta-me e julgo que há muita gente que não é digna do ar que respira. Julgo mesmo que não iremos ter um final feliz!

João Correia: Era isso que procuravas na magia? Uma razão por que valha a pena viver!
Tony Wakeford: Em certo sentido sim. Mas no fim acaba por terminar tudo em ti, sempre.

João Correia: Mas parece-me que pretendes recriar ou fazer renascer algo do passado, não?
Tony Wakeford: Não, não. Isso é utópico. O passado tem muito de horrível. Há apenas alguns dados do passado que eu vou buscar. Retorno, esse, só ao "self"!

João Correia: É aí que entra o uso da "folk music", num sentido mais genérico?
Tony Wakeford: Como disse, não tenho nada contra a tecnologia. Eu uso samples. Mas existe algo muito especial quando se ouve uma pessoa a tocar um instrumento. Há uma qualidade humana, uma dimensão humana. E uma máquina nunca substituirá isso.

João Correia: Sim, mas isso faz parte do dilema do acústico e tecnológico, e eu perguntei-te do uso da "folk". Não será por ser esta a que mais se aproxima da natureza?
Tony Wakeford: Isso é muito pessoal. Eu não me considero um bom músico. Não sou um especialista. Por isso a minha música é muito simples, muito básica. Assim, concentro-me em coisas simples, mais acústicas, para além de que gosto muito de ouvir aqueles instrumentos que tu estás a associar à folk. Mas, o que conta é só isto.

João Correia: Também já não és tão político quanto o eras no passado?
Tony Wakeford: Sim. Porque esta acaba também por ser uma forma de escravidão, quando te identificas com um partido ou uma corrente. Assim, deixei de lado "statements" do passado. Durante o punk, como tomávamos posições, éramos extremamente conotados com a esquerda. Depois, já com os DIJ, como fomos uma reacção a isso tudo, passámos a ser conotados com a direita. Os Sol Invictus já não são colunáveis, não transmitem mensagens políticas. Só as minhas obsessões pessoais!


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