| news | dm releases | events | interviews | reviews | playlist | links | record sales | contacts |


João Correia: Como vês hoje os T.G., Peter?
Peter Christopherson: Foi uma grande experiência e julgo mesmo que deixámos uma enorme influência que percorre ainda muitas pessoas, o que é óptimo e... ainda hoje recebo os cheques (risos). Não é muito, mas é muito mais do que alguma vez esperámos receber.

João Correia: O que é que esperavas em 1976?
Peter Christopherson: Nada. Absolutamente nada!... Apenas prensámos 600 cópias de "2nd Annual Report" porque nunca sequer pensámos conseguir vendê-lo. E hoje, essa edição original, vale muitas centenas de libras... Mas foi um grande período da minha vida. Muito criativo. Fazíamos muitas coisas excitantes.

João Correia: Das consequências práticas da existência dos T.G. já muito se falou, mas qual era realmente o vosso objectivo de então. Chocar? Abrir novas portas?...
Peter Christopherson: Essencialmente o de descobrir coisas novas em nós próprios. Ilustrar interesses escondidos das pessoas, fossem eles mórbidos, sexuais ou o que quer que fosse. Chocar não era a intenção, como propósito. Esses assuntos interessavam-nos e por isso o nosso trabalho criativo reflectia-os. No fundo, apenas usávamos formas e instrumentos pouco habituais e atingíamos uma audiência diferente.

João Correia: Qual era a reacção de uma audiência, "in loco", a tudo isso?
Peter Christopherson: Alguns desmaiavam. Outros vomitavam. Os outros ficavam e divertiam-se! Mas o que de bom ficou, e o melhor dos T.G., foi o de atingir uma geração de pessoas, hoje minha contemporânea, em vez da habitual dúzia de intelectuais de galeria de arte, apenas interessados em comprar o catálogo para depois se poderem ir embora, esquecendo tudo imediatamente.

João Correia: Eram dolorosas as actuações que praticavam então, não?
Peter Christopherson: Eu não as faria agora... por isso suponho que sim. Na altura não pensávamos nisso. Faziam parte da nossa vida.

João Correia: O que é que ficou da música industrial para hoje?
Peter Christopherson: Os T.G. começaram-na. Deram-lhe forma e conteúdo. Outros como os Cabaret Voltaire e os Clock Dva continuaram e diversificaram-na... Hoje, o termo mais não serve do que para catalogar um certo tipo de música, com sons metálicos e samples duros, tipo Front Line Assembly, que para mim não passam do simples rock'n'roll. Agora, já não há revolução!

João Correia: Mas não foi considerada a "dance-music" a nova revolução!?
Peter Christopherson: Algumas coisas do final dos anos 80 foram bastante interessantes. Especialmente no modo como essa música foi utilizada para mudar as mentalidades. Aí é que está a revolução e esta tinha um objectivo muito específico.

João Correia: Que depois se tornou em entertenimento!
John Balance: Sim, mas a "dance culture", ou "club culture", começou por ser uma experiência extremamente significativa e mesmo quase religiosa. Ganhava-se algo com a situação e com o momento e as pessoas enriqueciam-se. Era importante sair. Importante interiormente. Os "clubs" tomavam então quase a forma de um palácio ou de uma catedral. Ali passavam-se coisas.

João Correia: É "Love´s Secret Domain" (L.S.D.) o "dance album" dos Coil?
Peter Christopherson: Não, não. Não fazemos música de dança porque nem sequer sabemos como a fazer. Podemos apreciá-la e até usá-la, mas não é uma forma de música que nos satisfaça. O seu conteúdo e o seu vocabulário são muito limitados como meio criativo, pois exigem um funcionamento específico entre a mente e o corpo.

João Correia: Mas o maxi "Windowpane", com as suas versões, é um típico produto de dança, não?
John Balance: Não porque o seu ritmo é demasiado lento para isso. Para além de que o lado B é extremamente sónico/destrutivo. Digamos que é uma espécie de compromisso.

João Correia: Tem sido uma longa caminhada evolutiva desde os T.G., passando pelos P.TV, até aqui, ao "L.S.D."! Como é que sentem este percurso?
John Balance: Tudo mudou muito. Mas o que conta é que debaixo de todas estas roupagens a atitude tem sido muito semelhante: ver até que ponto conseguimos aguentar e permanecer puros. As coisas só começam a correr mal quando as pessoas acreditam nas próprias camuflagens que envergam!

João Correia: Isso pareçe-me uma crítica directa ao Genesis P. / Psychic TV e à Temple Ov Psychik Youth?
John Balance: Sim, porque tudo aquilo era muito bom. Existia um clima familiar e pretendia-se criar uma espécie de comuna, onde qualquer um se podia deslocar para consultar livros ou trocar informações. Para além disso, as pessoas não percebiam muito bem o que fazíamos ou o que representávamos, e assim conseguíamos manipular e controlar as situações. Havia uma perspectiva subversiva. Mas depois o dinheiro começou a entrar e ás tantas tornou-se importante e directivo. Essa foi uma das razões da nossa saída.
Peter Christopherson - Nos tempos dos T.G. éramos muito fechados e independentes. Com os P.TV passámos a encorajar a comunicação e os seguidores, e isso despertou no Gen uma vontade de ser líder. Ele começou a idolatrar a sua própria imagem e isso é fatal. Para além disso nessa altura casou-se e passou a ter uma família, deixando de viver da pensão social como sempre havia feito.

João Correia: E os Coil? Começaram, pelo menos no nome, por ser um projecto só teu (JB)!
John Balance: Os Coil começaram por ser, basicamente, os bocadinhos de música que eu fazia, sozinho, extra-P.TV. Depois, existiu também a ideia de ser um projecto com o Jim Thirwell (Foetus), mas acabou por ser como foi, eu e o Pete.

João Correia: Ainda assim trouxeram para os Coil muitas influências dos P.TV, não? Lembro-me da sonoridade obscura e ritual do vosso primeiro álbum "Scatology".
Peter Christopherson: Nós não as trouxemos. Aquilo que tu falas são coisas nós demos aos P.TV. Não as sentimos como sendo dos P.TV, mas como nossas.

João Correia: Existiu então mais uma perspectiva de continuidade ou de mudança?
Peter Christopherson: Para mim houve uma grande diferença. Os Coil foram um regresso à verdade. Foram um regresso a nós próprios.
John Balance - Para além disso, nós somos o que fazemos e aquilo que nos interessa. Mudar os tópicos não fazia sentido!

João Correia: No seguinte, "Horse Rotorvator", trocaram a imagem anterior por uma presença constante da ideia de morte, porquê?
Peter Christopherson: Os discos reflectem aquilo que nos preocupa e ocupa no momento, pois a nossa vida está intimamente ligada com a música. Acerca desse momento em particular, posso te dizer que então muitos dos nossos amigos estavam à beira da morte e alguns já tinham mesmo morrido devido à Sida. A morte estava à nossa volta de uma forma terrível!

João Correia: Qual é a vossa relação, a nível musical, com os vossos amigos? Já falaram de Jim Thirwell, mas eu lembro-me também de Gavin Friday, Marc Almond...
John Balance: São grandes amigos e é tão simples como isso. Se acontecer estarem por perto num momento de gravação, tudo pode acontecer.

João Correia: E o Stephen Throwar, no ínicio também designado como o terceiro elemento dos Coil?
John Balance: Apareceu à nossa porta um dia!...Mas o que deve ser claro é que o grupo Coil não deve ser visto como sendo nós, apenas. Há, por exemplo, engenheiros de som que fazem muito pelo grupo, como o Danny Hide. Ele devia ser considerado como um elemento dos Coil, a avaliar pelo seu trabalho.
John Balance - O que interessa é que não sentimos como necessário definir quem está por detrás do nome. Na essência, os Coil são uma faceta funcional das nossas ideias e do que sentimos pela música. O que conta é o produto e o que ele motiva. As personalidades envolvidas perdem o sentido da relevância no produto final.

João Correia: Acerca da banda sonora proposta para o filme de Clive Barker, "Hellraiser". Estamos a falar de outro tipo de intervenção. Como é que surgiu isso?
Peter Christopherson: É tudo muito simples. O Clive é nosso amigo de longa data e muitas das ideias do filme surgiram-lhe mesmo depois de ver algumas das nossas revistas sobre tatuagens e coisas do género, ou mesmo de muitas conversas que tivemos entre nós. Depois, quando surgiu a oportunidade de avançar, ele começou a escrever o argumento e nós a música. A meio das filmagens, os produtores não gostaram da forma como o filme estava a evoluir e obrigaram-no a reconverter todos os personagens e a história para o estilo americano-tipo. Obviamente, acharam a nossa música muito estranha. Não era suficientemente Hollywood!

João Correia: Em "L.S.D.", contudo, foi a revolução. Uma outra direcção rítmica, novos sons, novas formas...Pode ser tomado como a vossa interpretação da "dance culture"?
Peter Christopherson: L.S.D. não tem faixas potencialmente dançáveis! As influências "dance" estão apenas na mente.
John Balance - Só em 1988 é que chegámos mesmo a fazer bastantes faixas de dança, na linha "acid-house", mas nunca as lançámos para não parecer que estávamos a querer apanhar o comboio. Em "L.S.D." o que existe é um psicadelismo patente, na medida em que pretende de alguma maneira modificar a tua percepção. Foi deliberadamente preparado nesse sentido.

João Correia: Com ou para o uso de drogas (LSD)?
John Balance: Nós abusámos delas durante a elaboração do disco, sim. Mas não necessariamente LSD, isso foi mais uma piada! Havia a esperança e o objectivo de alcançarmos um certo resultado.

João Correia: Musical?
John Balance: Não, pessoal. Mas que se pudesse ouvir, ou sentir, de algum modo.

João Correia: L.S.D é um disco mais optimista que os anteriores...
John Balance: É acerca do prazer e das sensações. É um disco de electricidade e de drogas. Sensações físicas!

João Correia: Reflexo da vossa vida pessoal?
John Balance: Foi mais uma escolha; a de enfatizar determinada área.

João Correia: Porém, o vosso último lançamento, a reconversão de "How To Destroy Angels" para CD, não reflecte essa forma de estar!?
John Balance: Não concordo. A música de "How To Destroy Angels" também pretende te levar a qualquer lado. Um transe ou seja o que for. Pode ser calmo e meditativo. Quase religioso. Mas é apenas outro lugar onde a mente pode ir. Outro caminho.

João Correia: Não deixa de ser completamente diferente, ainda assim!
John Balance: Mas a música não é só aquilo que tu ouves. O barulho. É algo mais. Eu acho que as pessoas podem tratar os discos dos Coil de uma maneira semelhante. "How To Destroy Angels" é um disco de música ritual, mas os outros também o são, mesmo que não da mesma maneira. A música dos Coil tem um objectivo específico. Para a ouvires, tens de te preparar para ela, entrar nela. Exige um determinado ambiente e um esforço da nossa parte.

João Correia: Um envolvimento pessoal. Dar e receber!
John Balance: Sempre.


download interview in pdf > HERE
© Rui Carvalheira :: Dagaz Music :: 2002-2006 :: info@dagaz-music.com